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07 Novembro 2009

No outro dia, em Angra, cruzei-me com J. S.. Faltavam-me meia dúzia de dias para o regresso a Lisboa, e eu vinha subindo devagar a Rua da Sé, levado já por essa doce melancolia de quem se despede mas sabe que regressará. Dei de caras com ele em frente ao Atanásio – e gelei. Durante toda a infância, e depois pela adolescência dentro, eu habituara-me a ter medo daquele homem. Tinha medo da sua pose sobranceira, do seu rabo de cavalo, do sinal que lhe dava expressão ao rosto – e tinha sobretudo medo da sua fama. J. S. era um bandido. “O” bandido: o ladrão, o traficante, o extorcionário, o receptador. Olhei melhor para ele: parecia agora mais gordo e mais mirrado, mais rubicundo e até certo ponto mais inofensivo. Mas a determinada altura os nossos olhares cruzaram-se – e, então, eu voltei a gelar da mesma forma que teria gelado na infância, se alguma vez nos olhássemos mutuamente nos olhos.

Soube-o pouco depois, pelo Carlos, que ainda passou lá em casa para uma última mini: J. S. já não se dedica ao crime. Da última vez que saiu da cadeia, decidiu não voltar a perder o Rendimento Social de Inserção, que lhe retiravam sempre que reincidia – e reformou-se. Calculam os meus amigos carcereiros que passou dois terços da sua vida cinquentenária na prisão, cumprindo penas grandes e penas pequenas, partindo em liberdade condicional e logo recaindo, saindo em precária e sendo apanhado, nessa mesma tarde, num furto qualquer. Agora, não quer prevaricar mais. “Está velho e cansado”, diz o Carlos. “Se for apanhado novamente, tiram-lhe o subsídio de vez. De maneira que anda aí pela cidade, como um triste. Se deixares cair a carteira no chão, não ta vai entregar. Mas também não ta vai buscar ao bolso.”
Nos Açores, é assim: é tal a dependência do RSI que os próprios ladrões já pensam duas vezes antes de voltar à profissão. Segundo a Segurança Social, há agora no arquipélago (que tem, oficialmente, uma das mais baixas taxas de desemprego do país) mais de 18 mil beneficiários. E o problema é que os beneficiários têm dependentes. No outro dia, numa espécie de debate público, calculei em 54 mil os açorianos a viver deste expediente. Caíram o Pico do Ferro e o Ilhéu das Cabras: que não, que não – que os números não eram esses de maneira nenhuma. Pedi os números: não há. E, portanto, só tenho os dados do INE quanto à dimensão média das famílias: 2,8 elementos de média nacional, 3,3 elementos nos Açores. Calculado, dá um total de 59 mil bocas por 18 mil beneficiários. Mas que sejam 50 mil, vá: é um quinto da população. Ou seja: um quinto da população dos Açores vive com base no RSI, habituando-se ao ócio, à pedincha, à inutilidade e à humilhação.
E em nenhum momento, como muito bem assinalava há dias Isabel Jonet (possuidora de inigualável experiência no terreno), o Estado lhes pede sequer que retribuam o subsídio com algum tipo de serviço cívico, seja ele colaborar na desmatação das florestas ou simplesmente ajudar velhinhas a atravessar a rua. Àquelas 18 mil pessoas, como de resto aos seus milhares de dependentes, basta-lhes comparecer a uns encontros com a assistente social – e o resto, para muitos deles, é ir ao multibanco, gastar rapidamente o dinheiro pelos cafés, viver o resto do mês da esmola e, no dia das eleições, ir votar no PS. Diz o Governo Regional, como em Lisboa diz o Governo da República, que o mecanismo ajudou a “tirar muitas pessoas da pobreza”. Pois eu acho que o RSI efectivamente tira muitas pessoas da pobreza durante três ou quatro meses, mas a partir daí as afunda numa miséria ainda maior.
Culpa dos beneficiários? Pelo contrário. Os açorianos são pessoas especiais. No dia 1 de Janeiro de 1980, e poucas horas depois de um terramoto que varreu três ilhas, já havia por todo o lado pessoas a reconstruírem as suas casas com as próprias mãos. Estou a falar de gente de trabalho, que arregaça as mangas, que se chega à frente. Mas estou a falar de gente. E a gente habitua-se. Nós habituamo-nos. Alguns precisam mesmo do Redimento Social durante muito tempo – e ainda bem que ele existe. Outros precisam dele apenas durante uns meses – e, infelizmente para eles próprios, têm-no durante tantos anos quantos aqueles que demoram a afundar-se de vez. E esse, numa região onde o índice de beneficiários é o dobro da média nacional (7,2% contra 3,85%), já não é apenas um problema económico: é um problema que suga a própria massa crítica do arquipélago. O que não é só bom para os bandidos: é óptimo para os políticos também.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 7 de Novembro de 2009

publicado por JN às 17:19
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Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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