De todas as notícias, especulações e acusações esgrimidas ao longo desta campanha eleitoral, a mais relevante foi provavelmente a de que o Partido Popular Monárquico morreu. Quer dizer, tanto quanto se sabe, o bom do PPM ainda vai aparecer nos boletins eleitorais de amanhã. Mas o seu site oficial só serve agora para promover os fadinhos dos irmãos Câmara Pereira – e os seus tempos de antena, como já alguém sublinhou, não foram ocupados por outra coisa senão um símbolo mudo, que apesar de tudo prometia ter efeitos menos perniciosos na votação do partido do que teriam tido os ditos fadinhos.
Adiante. Passei uma boa parte da minha vida a militar contra a monarquia. Nado pelintra, entendi que talvez não me favorecesse deixar colarem-me à testa um ferro em brasa com as insígnias: “Este senhor está autorizado a viver, mas vai ter de aprender maneiras. De resto, não pode ser chefe de Estado, levantar muita guedelha ou aparecer nas revistas de sociedade em geral.” Para mim, no fundo, a monarquia foi sempre um sistema um bocado obsoleto, baseado no privilégio gratuito de uns e na ostracização ostensiva dos restantes, incapaz de promover o mérito, a mobilidade social ou sequer a democracia (a não ser, claro, no sentido em que o orçamento da família real e seus cortesãos é a dividir por toda a gente em partes iguais).
Pois o tempo veio a fazer-me mudar completamente de ideias. No fundo, já lá estava a centelha há muito: nasci e cresci na ilha Terceira, sempre gostei da minha touradinha. Mas é mais do que isso: hoje em dia, eu acho mesmo que a monarquia era o melhor que podia acontecer-nos. De resto, porque haveria eu de querer avançar para chefe de Estado? Isto, em Portugal, um tipo candidata-se a um cargo público e logo dá por si a ser entrevistado pela Maria Flor Pedroso, que faz perguntas e tudo.
De forma que a minha esperança reside agora toda nos rapazes do 31 da Armada. Vocês sabem: aqueles que penduraram uma bandeira do Portugal monárquico na Câmara de Lisboa, desencadeando uma série de outras drapejantes manifestações e disputas. Aqueles do blog. Aqueles do escadote. Aqueles da máscara do Darth Vader, caramba. Pronto: os únicos portugueses que se têm preocupado em celebrar o centenário da República. Ah, bom.
A minha única dúvida é se os ditos rapazes estarão na disposição de dar o passo decisivo: avançar directamente para a monarquia absoluta. É que isto da monarquia constitucional é muito bonito, mas no fundo é para meninos. Então uma pessoa tem um rei e, depois, o desgraçado do homem tem de andar a pedir aos santinhos todos, de repartição em repartição, só para conseguir aprovar o mais banal morgadio, o mais inofensivo dízimo? Então uma pessoa tem um rei e, depois, o desgraçado tem de andar à cata de escutas debaixo da almofada do trono, sob o brasão incrustado no ceptro, disfarçado de opala no aro central da coroa?
Pois, por mim, suspende-se a democracia: é monarquia absoluta e pronto (quando muito, vá lá, um nadinha esclarecida, à maneira do Iluminismo, que é para deixar os paparazzi tirarem fotografias). De resto, fica tudo resolvido. Poupa-se um balúrdio em eleições – e, sobretudo, poupa-se imenso nas campanhas eleitorais. Imenso dinheiro e imensa vergonha. Poupa-se o público às reportagens e às entrevistas “intimistas”. Poupa-se os feirantes aos beijos lambuzados e aos bonezinhos de mau gosto. E poupa-se os políticos às aparições penosamente engraçadinhas em programas de humor.
Na pior das hipóteses, sai-nos como el-Rei D. Duarte Pio. Ainda teríamos ao nosso alcance, claro, a figura da monarquia absoluta auto-proclamada. Mas mesmo D. Duarte Pio a tempo inteiro, 24 horas por dia, perorando sobre o estado da vinha e deixando-se fotografar para a Ana + Atrevida – mesmo isso será amplamente preferível ao suposto sentido de humor de Sócrates, à alegada telegenia de Ferreira Leite, à escoante química de Paulo Portas, à discutível energia de Jerónimo de Sousa e às comprovadas fugas de Francisco Louçã das peixeiras que querem osculá-lo.
E, pronto, é assim: inventam isto do período de reflexão, um tipo põe-se a reflectir e não tarda está a roçar a violação da lei eleitoral. Retiro tudo o que disse, pois: o que eu queria mesmo era, hum, uma monarquia cá em casa. Bom: até já há, mas eu sou apenas o príncipe consorte. Não é mau de todo: se à rainha chamo princesa, fazendo-a sentir-se jovem e enérgica, logo sou alvo do favor real. Mas quem me dera ser o rei. Será que o PPM está à venda, como um dia esteve o PRD?
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 26 de Setembro de 2009

